quinta-feira, 12 de novembro de 2009

A Criação de Deus!




Hoje pela manhã ao sair de casa me deparei com um maravilhoso perfume que exalava dos jasmins que ficam bem próximos do portão da rua. Fui levado a pensar em Deus e adorá-lo, expressando mesmo que em pensamento gratidão a Ele. A razão disso se dá pelo fato de que Deus poderia ter criado os jasmins sem perfume algum ou sem beleza alguma, no entanto Ele faz ao contrário, coloca na Sua criação aquilo que é agradável a nós, no caso dos jasmins a sua beleza e o seu perfume, desembocando assim em nosso bem estar.
É maravilhoso saber que Deus não criou as coisas de qualquer forma, mas o fez pensando em nós, afim de que das mesmas, nós pudéssemos desfrutar e nos alegrar.
Pense bem, Deus poderia ter criado os alimentos sem gosto algum, no entanto Ele põe um sabor nos alimentos para que possamos não tão somente nos alimentar, mas também sentirmos prazer nos alimentando. Pense em uma deliciosa manga ou em qualquer outra fruta do seu gosto! Você as come e o seu corpo fará uso das vitaminas que nelas há e ao mesmo tempo, você é tomado de satisfação por causa do sabor que ela tem.
Ainda podemos pensar na questão estética que há na natureza. Pense na praia e no mar, pense agora no mesmo ambiente só que no pôr do sol, ou então ao amanhecer, é algo lindo que faz bem para as nossas almas. Entenda, isso é um presente de Deus para você, não viva a vida sem levar em consideração aquilo que está em sua volta e que foi criado para o seu bem.
Deus criou e organizou todas as coisas para o nosso bem ( veja, o nada, nada cria ), portanto sejamos gratos a Ele pelo milagre da vida e da nossa existência.

Em outro momento conversamos mais sobre este assunto.

Que Deus abençoe a Todos!

Claudio Roberto.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Missão Portas Abertas - Paquistão







16/10/2009 - 14h56

Menina cristã é agredida por professora




PAQUISTÃO (13º) - Uma estudante cristã em Punjab, Paquistão, estava em recuperação neste domingo, 11 de outubro, depois de ser agredida por uma professora com uma vara de bambu por declarar que ela era paquistanesa e cristã. Nadia Iftikhar, de 11 anos, disse que ficou gravemente ferida quando a professora da escola “Futuro Brilhante”, na cidade de Dharema, ficou nervosa porque a aluna confrontou sua visão do islamismo. “Nossa professora estava nos ensinando sobre a cultura do Paquistão e de seu povo, e citou uma frase do livro didático que dizia: ‘Somos paquistaneses e todos nós somos muçulmanos’”, relembra a menina. “Nesse momento, eu a interrompi e disse: ‘Senhor, eu também sou paquistanesa, mas não sou muçulmana. Sou cristã.” Nadia conta que a professora, identificada como Humaira Hassa “ficou furiosa, pegou uma vara de bambu e começou a me agredir, dizendo que todos os paquistaneses são muçulmanos e que eu não era paquistanesa por ser cristã”. “Sua casa deve ser em algum lugar da Europa ou da América”, a professora dizia. A adolescente mostrou as cicatrizes em suas costas. Os colegas de classe disseram que Nadia ficou inconsciente por um curto período de tempo e foi levada para casa. O pai da menina, Iftikhar Masih, 45, disse que não foi até a polícia. “Eu sou um cristão pobre e trabalho muito para sustentar a minha família”. Cristãos locais na província de Punjab também reclamaram da cumplicidade da polícia nos ataques contra os cristãos.
“Eu levei minha filha ao médico e acreditamos que seus ferimentos sararão logo, e ela poderá voltar para a escola em breve.”
Não ficou claro se a menina será recebida novamente na escola “Futuro Brilhante”, onde estuda há quatro anos.
Tradução: Missão Portas Abertas

Fonte: BosNewsLife

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro









O Rio de janeiro foi escolhido para sediar os Jogos Olímpicos de 2016, notícia essa que foi recebida com festa por muitos.


Penso que diante da realidade que o Rio vive atualmente, não nos encontramos em condições financeiras, nem morais para sediarmos uma Olímpiada.


Financeira por que temos em nossa cidade a necessitade de investirmos dinheiro em muitras outras áreas mais importantes do que em um evento esportivo tão custoso. Nosso hospitais funcionam em terríveis condições, a educação pública é precária, temos em nossas ruas milhares de crianças que carecem serem acolhidas pelo Estado e não são e dormem na rua, se drogam e se prostituem e o Estado não faz nenhum tipo de investimento que não seja fruto de uma politicagem, para solucionar esses e outros mais ( se eu mencionase todos a lista seria enorme) problemas que nós temos em nossa cidade. Citei esses, pelo fato de eu mesmo o percebê-los diáriamente no exercício de meu trabalho.


A questão moral que eu coloco diz respeito a questão da segurança, do fato de nós não termos mais o direito de irmos e virmos, do senso de insegurança que fácilmente podemos perceber pelas ruas do Rio de janeiro e que são fruto da falta de uma política preventiva de segurança e punição aos crimes que são cometidos. A impunidade é uma realidade visível e não vemos o Estado buscando soluções efetivas para solucionaro problema, isso é uma obrigação do Estado, independente de uma Olímpiada ou qualquer outra coisa. O Estado existe entre outras coisas, mas principalmente, para garantir a segurança, o direito, o bem estar de seus cidadãos, etc. O Brasil, O Estado e o município do Rio de Janeiro não cumprem com sua obrigação!


Permitam-me apresentar uma experiencia minha. Eu trabalho prestando serviço a uma empresa aqui no Rio de Janeiro. Meu serviço é externo, estou o tempo todo em contato com o público. Na última quinta-feira eu estava trabalhando na Tijuca, pela manhâ quando eu saía da casa de uma cliente, um menino me parou e me disse que estava sendo seguido por um outro garoto. O garoto fugiu quando percebeu que ele havia sido denunciado pela sua vítima. Perguntei ao menino o que aquele garoto queria e ele me disse dua ele estava querendo o seu celular e como ele não tinha o garoto passou a seguí-lo. Durante esse dia as pessoas que me atenderam em suas residências e que não me conhecem, me atenderam com um temor claramente percepitível. Olho para as casa e vejo grades e mais grades, cães de grande porte e câmeras para todos os lados (censo de insegurança). Os porteiros também se encontravam extremamente temorosos (alguns quase não permitiram o meu acesso para efetuar o meu serviço), no final da tarde um porteiro me etendeu com um facão escondido na cintura, ele só me mostrou o facão depois quando percebeu que eu era também um trabalhador como ele, nunca aconteceu isso comigo, tomei um susto! Eu já tinha sido atendido por uma cliente com spray de pimenta nas mãos, mas com facão nunca! Quando terminei o serviço voltei para o centro onde fica o escritório da empresa em que eu trabalho para prestar contas do meu serviço, quando eu ia embora para casa e fui para a Central do Brasil, no lugar dos trens eu encontrei dezenas de policiais militares, batalhão de choque e sem querer acabei passando por um lugar onde os mesmos haviam lançado gás de pimenta o que me ocasionou ardencia nos olhos e no nariz. Acabei embarcando em um onibus super lotado em uma avenida brasil intransitável. Como podemos pensar em sediar uma Olímpiada se os nosso problemas mais urgentes e básicos não são solucionados, respeitosamente eu coloco que não temos moral diante da nossa população e do mundo para sermos a sede. A questão da violência no Rio de Janeiro é imoral!


ESTATÍSTICA DA VERGONHA



Apresento essas estatísticas para refletirmos se de fato a nossa prioridade deve ser essa Olímpidas ou a vida dos cidadãos cariocas.

Essas estatísticas estão no Blog do Palavra Plena - http://palavraplena.typepad.com/

Dia 18/9/2009.

Há aqueles que dizem que as Olímpiadas nos traram benefícios inclusive na área social e também na da Segurança, no entanto esses benefícios são uma obrigação do Estado, independente de Olímpiada ou qualquer outra coisa, é um direito do cidadão carioca.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Perseguição aos Cristãos






Gostaria de compartilhar um e-mail que recebi hoje do Ministério Portas Abertas, sobre a perseguição de cristãos no mundo.
"Então Jesus disse aos seus discípulos: ‘Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me’."Mateus 16.24
Claudio,
O discípulo de Cristo deve tomar a sua cruz. Se quisermos ser mais parecidos com Jesus, devemos andar como ele andou, e isso inclui o “carregar a nossa cruz”. No entanto, essa não é a orientação mais difícil de seguir. Nós, cristãos, ouvimos diversas vezes que no mundo teremos aflições, mas que podemos ter bom ânimo. Mas negar a nós mesmos é muito mais difícil. Deixar de lado nossa própria vontade, nossa forma de agir e reagir, e aceitar viver a vida que Deus tem para nós, carregando, a cada dia, a nossa cruz, não é nada simples. Mas é um passo de fé, que pode ser dado hoje.
Na China, o pastor Hua Huiqi foi atacado por agentes do distrito de Fengtai, em Pequim. Depois de saber sobre um incidente envolvendo sua igreja, o pastor Hua Huiqi voltava para casa quando cinco oficiais do PSB cercaram seu apartamento. Ele foi levado para um local desconhecido e continua desaparecido. Ore por ele e por sua família.
Na Colômbia, Rafael Velasquez, pastor da Igreja do Evangelho Quadrangular foi assassinado em sua casa por três homens com capuzes, no dia 6 de setembro. O pastor foi baleado na frente de sua esposa e de seis membros de sua igreja, e morreu na hora. Lembre-se dessa família e dessa igreja em suas orações.
Na Inglaterra, a enfermeira Shirley Chaplin foi proibida de usar um pingente de crucifixo juntamente com seu uniforme, sob o pretexto de colocar em risco a saúde e a segurança dos pacientes. Ela trabalha no local há mais de 30 anos, mas corre o risco de sofrer uma ação disciplinar se não obedecer as orientações dos diretores do hospital.
Faça como nossos irmãos que pagam um alto preço, não em nome de uma religião, mas por amarem a Jesus acima de todas as coisas. Separe um tempo todos os dias e interceda por esses cristãos que negam muitas coisas, mas decidem não negar Jesus.
Que Deus abençoe sua semana,Deborah Stafussi
PS: Sua opinião é muito importante para o Blog da Equipe. Ao comentar os posts, você colabora para que, juntos, possamos edificar muitas vidas.
P.S.
Não deixem de visitar o site do Portas Abertas e conheçam melhor esse ministério.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

CONCLUSÃO




Apesar dos questionamentos em relação à lucratividade do Tráfico de Escravos, foi ele que alimentou, com mão de obra, o sistema produtivo colonial americano. E foi esse tráfico que integrou de uma forma direta toda África mais ao sul à Europa. Antes disso, apenas o norte da África estava ligado diretamente ao clássico “Velho Mundo Europeu”; mas essa África mais distante, já mantinha relações com o Norte da África, mais próxima e diretamente envolvida nas relações com o Mediterrâneo.

Na África, a escravidão era comum; fazia parte do ambiente das etnias africanas. Uma África que comerciava já havia antes de iniciar o Tráfico Negreiro do Atlântico. Havia caravanas por entre terras, florestas, savanas e desertos, com populações em constante troca cultural a que proporcionava o comércio, favorecendo a receptividade de novas tecnologias e materiais, além dos gêneros comercializados e trocados. No continente africano, nos parece constante um movimentado batuque de interação entre as diversas áreas geográficas e suas variadas etnias, em diversos graus de desenvolvimento, ora rivais ora associadas, com reinos, impérios, hierarquias, políticas, guerras, comércio.

A África já vinha produzindo escravos, principalmente através de conflitos e discordâncias entre as etnias. Mas, a demanda cresce através da inserção da América no contexto do Mercantilismo europeu, e, na África, também cresce a produção de escravos.

A situação confusa do Mediterrâneo, devido à expansão árabe, sobretudo, e todas as dificuldades da rivalidade e da competitividade marítimo-mercantil, a organização das mornarquias nacionais em Portugal e em Espanha, o desenvolvimento de tecnologia, e a experiência ibérica nas navegações, o surgimento de uma burguesia e o precipício em que se encontrava o Feudalismo e o Império Romano do Oriente, tudo isso facilita, colabora, aciona e condiciona a um novo caminho para as Índias. Para isso vai-se, de início, de uma “ponta” da Europa (Portugal), para a África. Inicia-se o contorno da África.

Em início, a estratégia dos europeus era a da pilhagem, da invasão à força, conforme realizavam ao norte da África, no mundo árabe. De início também, obviamente, buscavam outro, como se a corrida, fosse além do comércio em si com Oriente, o acúmulo do ouro, própria do metalismo que caracteriza o Mercantilismo. Nessa época, esses capitães mercantes e guerreiros eram financiados pela Monarquia. Pilhavam pontos litorais levando ouro, e tudo que quisessem que fosse valioso, e fazendo escravos.

Mas, com o tempo, a estratégia muda, quando os europeus percebem que essa África abaixo do Norte poderia se tornar franca ao comércio europeu; a estratégia da invasão e pilhagem se torna, então, antiquada; passa a vigorar o comércio amistoso diretamente entre africanos e europeus.

A abertura de um comércio atlântico, possibilitado com a implantação de colônias européias de exploração na América de um lado, e a África como fornecedora de gado-humano de outro, ligadas por um comércio marítimo intenso liderado pela Europa compunha uma nova situação do Mundo, não mais restrito ao Mar Mediterrâneo.

Com o tempo, nos séculos XVII e XVIII, o comércio de uma forma geral se intensifica. E se o plano europeu de colonização da América se baseava no escravismo, crescia a demanda de escravos, e crescia o comércio também na África. Na África, os desentendimentos entre as etnias e a pré-existência da escravidão eram facilitadores; e, comunidades do litoral da África (que estabeleceram contato com os navegadores europeus), sobretudo, passaram a demandar mais escravos. Iniciou-se então uma produção de escravos maior. E o escravo tomava maior importância nos produtos de exportação. Por essa época, além de Portugal e Espanha, outros países já se interessavam pelo Comércio do Atlântico, inclusive o de escravos; ao mesmo tempo, os Estados nessa fase já não financiavam diretamente as expedições marítimas, pois companhias de comércio já estavam estabelecidas.

Pode parecer estranho hoje, mas na época era aceitável o escravo ser entendido como bem, como produto, tal qual uma peça de gado, pois assim o era. E a produção de escravos para exportação enquanto a demanda não cessa.

Mesmo com abolição das exportações, e com a ocupação britânica, em 1850, no interior do continente, a escravidão e o comercio se faziam presentes; uma das causas disso foram guerras iorubanas, agravando a situação do interior e se fazendo, ou melhor, se produzindo mais escravos.

Quando a Europa, após as Revoluções Industrial e Francesa, pressiona à América ao fim do escravismo, na África, a demanda por uma exportação de escravos termina, saindo de campo os europeus traficantes de escravos. Mas a escravidão permanece em África, até o século XX, internamente, conforme era praticada antes mesmo da exploração de negros pelos Europeus. Depois de ouro, marfim e especiarias, após produzir escravos, a África passa agora a ter como foco da exportação óleo de palmeira.

Percebemos que na África, um comércio interno era integrado a um comércio de exportação. E as rotas terrestres de comércio levavam, além dos escravos, outras mercadorias no lombo, por esses mesmos, carregadas. Em linhas gerais, pudemos perceber nessa pesquisa, duas Áfricas que se apresentavam integradas: a do interior e a do litoral; a primeira que produz e fornece escravos e produtos diversos ao litoral, dele recebendo o que lhe serve ao consumo e propriedade; a última, que recebe do interior aquilo que deseja consumir e obter, além dos produtos que deseja exportar (escravos inclusive); juntam-se a tudo isso, as relações comerciais com o norte da África. As diversas “áfricas”, integradas ao mercantilismo interno, buscavam lá, talvez, a sua balança comercial favorável, no “jogo” de um mercantilismo interno.

Podemos, assim, dizer que o tráfico negreiro do Atlântico se estruturava por uma rede complexa de relações comerciais africanas e européias, nutridas por regras de jogo do mercantilismo. Como num ciclo, todo o comércio marítimo do Atlântico, e o Negreiro, ligavam três continentes: África, Europa e América. Numa ponta a América, produtora de bens de exportação e receptora de mão de obra escrava; noutra ponta a África produtora e exportadora dessa mão de obra. Liderando e realizando o comércio estavam os europeus.
Talvez ainda seja correto considerar a mão de obra africana sustentáculo do sistema colonial americano; e este o patrocinador da Revolução Industrial na Europa, porque foi com capital acumulado que a Inglaterra se lançou ao seu futuro, e porque fora com o braço escravo que se produzira e se extraíra a riqueza da terra colonial européia na América.
O Tráfico Negreiro, horrível, causador de tristeza e dor para tantos escravos possibilitava a colonização da América, introduzia a África Subsaariana direta e constantemente às relações com a Europa, que mais enriquece com a exploração de suas colônias nessas Américas e com a exploração de povos africanos escravizados aqui negociados.


BIBLIOGRAFIA

KLEIN, Herbert S. O Tráfico de Escravos no Atlântico. Ribeirão Preto: FUNPEC Editora, 2006.
LOVEJOY, Paul. A Escravidão na África – Uma História de suas Transformações. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.
RODRIGUES, Jaime. De costa a costa. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
THORNTON, John. A África e os Africanos na Formação do Mundo Atlântico 1400-1800. Rio de Janeiro: Campus, 2004.



terça-feira, 25 de agosto de 2009

6. O FIM DO TRÁFICO NEGREIRO

A campanha contra o tráfico negreiro teve sua origem no questionamento intelectual da legitimidade da escravidão e do tráfico negreiro, que se iniciou dentro do contexto das idéias iluministas do século XVIII, e tornou-se uma cruzada moral de um pequeno grupo de seitas protestantes nas últimas décadas deste mesmo século. Anteriormente alguns pensadores abolicionistas já sustentavam que o tráfico negreiro era imoral, mas eram vozes isoladas e sem nenhum impacto sério na ideologia européia. Entretanto, no final do século XVIII alguns renomados escritores começaram a ver a escravidão como sendo algo contrário à ética para uma economia de mercado moderno, ou a consideravam um desafio fundamental diante do novo conceito de igualdade entre todos os homens.
A primeira reação contra a escravidão ocorreu no século XVIII, partindo de uma seita protestante radical, os Quakers[1]. Eles consideravam o tráfico escravo um pecado e não podiam admitir que um cristão tirasse proveito dele. Enviaram, em 1768, ao parlamento de Londres uma solicitação pedindo o fim do tráfico de escravos. Pouco depois, John Wesley, o fundador do movimento metodista, pregou contra a escravidão (Klein: 2006) afirmando que preferia ver as Índias Ocidentais naufragarem a manterem um sistema que violava a justiça, a misericórdia, a verdade.
A riqueza britânica criada pelo trabalho escravo foi um elemento fundamental no processo de acumulação de capital que tornou possível a revolução industrial, e os lucros conseqüentes constituíram um elemento sólido no interior de algumas famílias e da sociedade em geral, repassados de geração para geração. Nesse contexto, a reivindicação por uma indenização é uma proposta séria, semelhante àquela apresentada pelas famílias de sobreviventes do Holocausto pela devolução de bens roubados pelos nazistas. Os negros cujos ancestrais foram escravos, vítimas desse outro Holocausto, reivindicam simplesmente que os frutos roubados da força de trabalho de seus avôs sejam devolvidos aos seus herdeiros.
Em segundo lugar, Klein (2006) nos lembra que o fim do tráfico não resultou apenas da agitação dos quakers, de outros dissidentes cristãos e de parlamentares radicais, mas também do trabalho dos próprios escravos, que se engajaram na divulgação do fato. A propagação da agitação contra o tráfico negreiro foi o estopim para a rebelião de escravos que se alastrou pelas Américas e Caribe no final do século XVIII, alcançando seu pico durante os anos da Revolução Francesa.
Economistas ilustrados também entraram na luta. Tanto os Fisiocratas franceses como Adam Smith, o pai do capitalismo moderno, (Klein: 2006) afirmaram que a escravidão era deficitária porque empregava uma enorme quantidade de capital humano que produzia muito aquém daquele gerado por homens livres. Viam-na como parte de um sistema de monopólio e privilégio especial, onde um homem desprovido de liberdade não tinha nenhuma oportunidade de garantir a propriedade do que quer que fosse e que seu interesse em trabalhar era o mínimo possível. Assim a escravidão só podia sobreviver pela violência sistemática do amo sobre o cativo. Anterior a ele, nas colônias americanas, Benjamin Franklin foi o primeiro homem moderno a submeter à instituição da escravidão uma analise contábil, concluindo também que um escravo era muito mais caro do que um trabalhador livre.
No plano filosófico, Montesquieu afirmava que a escravidão, por sua natureza, não é boa, não é útil nem para o senhor muito menos para o escravo. Mais radical do que Montesquieu foi o pensamento de J.J. Rousseau, para quem os homens haviam nascido livres e iguais e para quem a renuncia à liberdade constitui uma renúncia à vida.
Apesar de Condorcet lamentar que só uns poucos filósofos atreveram-se de vez enquanto a soltar um grito a favor da humanidade, a soma das pressões religiosas, econômicas, filosóficas e morais começaram a surtir efeito. O Século das Luzes, como o século XVIII foi chamado, terminou por condenar a escravidão como atentatória à dignidade do homem, A Revolução Francesa de 1789 aboliu com a escravidão nas colônias francesas por acreditá-la incompatível com a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Napoleão, porém, mais tarde, restaurou-a. Mas em 1848 ela foi finalmente reafirmada.
Na Inglaterra o abolicionismo encontrou respaldo num grupo militante chamado de The Saints, que organizaram, em 1787, sob liderança de William Wilberforce, uma sociedade antiescravista. Graças às suas batalhas parlamentares contra os interesses escravistas das cidades portuárias de Liverpool e Bristol, Wilberforce conseguiu fazer aprovar a lei de 1807 que proibia o tráfico negreiro.
Depois de uma série de leis intermediárias, a abolição completa da escravidão nas colônias inglesas ocorreu em agosto de 1834 que libertou mais de setecentos mil homens, mulheres e crianças. Nesse ínterim a Inglaterra havia declarado guerra aberta ao tráfico. Nenhum barco negreiro poderia mais navegar os oceanos sem ser vistoriado. Se fosse capturado os escravos deveriam ser devolvidos. Por pressão inglesa, o Brasil finalmente concordou em abolir com o tráfico pela Lei Eusébio de Queirós, em 1850. Mesmo assim continuou recebendo, em desembarques clandestinos, braços contrabandeados, o que gerou sérios atritos com a marinha inglesa.
Na verdade, a razão material primeira da abolição foi a emergência da sociedade industrial, surgida pelos efeitos sócio-econômicos provocados pela introdução da máquina a vapor no processo produtivo.. Essa sociedade, que se expandia a partir do século XVIII, produzia mercadorias em série para consumo em massa. Uma comunidade de escravos não consome, pois não ganha salários. Houve então um conflito estrutural e ideológico entre a crescente e poderosa sociedade industrial, que requeria mercados livres e trabalho assalariado, com a política mercantilista de mercados cativos e mão-de-obra escrava.

[1] nome dado a um membro de um grupo religioso de tradição protestante, chamado Sociedade Religiosa dos Amigos (Religious Society of Friends).

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

5. GRUPOS CULTURAIS AFRICANOS NO MUNDO ATLÂNTICO

As condições de escravidão, por pior que fossem, não impediram o desenvolvimento de uma comunidade que, embora quase sempre desequilibrada demograficamente, conseguiu criar uma geração creole e, assim, o potencial para manter e transmitir sua própria cultura.
Segundo Thornton (2004), os historiadores dividem-se em relação a esta questão. Alguns argumentam que os escravos mantiveram uma cultura africana e que a influência da África foi importante na cultura afro-americana resultante, porém outros afirmam que a desorganização cultural da sociedade escrava tornou-a muito dependente da cultura européia ou da euro-americana. As características do comércio de escravos e da escravização impediram a transmissão direta da cultura africana para as Américas. Thornton (2004) aponta que, primeiramente, a cultura africana não era suficientemente homogênea para construir um único bloco. Em vez disso, existiam várias culturas diferentes. Segundo, o comércio de escravos tentou dispersá-los, agrupando culturas diferentes ao contrário da migração européia, em que as pessoas da mesma área viajam e colonizam juntas à América. Os imigrantes africanos não formam um grupo, e toda uma nova estrutura social e organização foi criada, começando pelo par de escravos dividindo o mesmo navio.
A ausência de uma especificidade étnica e cultural necessária para manter ou recriar a cultura africana nas Américas levou os escravos a formarem uma nova cultura. Essa nova cultura tem raízes africanas, baseia-se num denominador comum de muitas e variadas culturas da África que serviram de alicerce, porém foram criadas em um contexto cujos elementos da cultura européia serviram de material de ligação.
Para os europeus, sobretudo os que conviveram com o tráfico negreiro, a África dividi-se em muitas nações e países. Em sua forma primária, a nação era reconhecida pela sua linguagem. O conceito europeu de nação na época era etnolingüístico, e não político. A linguagem ou nação pode ser usada como indicador essencial de uma cultura, em que cada língua representa uma nova cultura. Nesse caso a África possuía uma diversidade cultural impressionante.
Entretanto a linguagem não é o único fator de diferenciação quanto à cultura. Em muitas partes da áfrica Central e Ocidental, povos de diversos grupos lingüísticos interagiam no cotidiano, em virtude da proximidade física ou de relações comerciais. Estes grupos compartilhavam idéias religiosas ou princípios estéticos, pois possuíam uma religião comum ou uma herança artística a despeito da diversidade lingüística.
Esses grupos culturais não foram dispersos durante o tráfico negreiro. Os navios embarcavam toda a sua carga em um ou dos portos africanos, e a descarregava em aproximadamente de duzentos a mil portos no Atlântico. Os capitães dos navios tinham interesse em reunir a maior quantidade de escravos em menor tempo possível, para reduzir suas despesas e diminuir a mortalidade. Outra circunstancia que influenciou o embarque de escravos com características homogêneas em um só navio, foi que os mesmos eram capturados em guerras e, em geral, faziam parte do exército do país derrotado, recrutados em um grupo muito restrito.
Alguns literários defendem que o comércio escravo não foi um elemento desintegrador para os grupos culturais africanos. Esse rompimento ocorreria no processo de venda e na utilização de mão-de-obra escrava nas propriedades da América. Os escravos nunca eram vendidos em um só bloco e, portanto, chegavam em fazendas e propriedades vindos de navios e cargas diferentes e sendo misturados deliberadamente pelos proprietários de fazendas para evitar rebeliões.
Porém, para Thornton (2004), o comércio dos escravos e sua transferência para as comunidades agrícolas não foi um processo de dispersão. Ao contrário, embora o processo de escravização, venda e distribuição nas propriedades tenha interrompido o curso da vida pessoal e familiar dessas pessoas, seu efeito negativo em sua cultura foi menor que muitos sugerem. Os escravos quando chegavam ao Brasil encontraram com facilidade outros com quem falar sua língua e partilhar seus costumes no novo ambiente. Informações mostram que muitos escravos encontraram parentes, amigos ou associados que tinham conhecido na África, graças às características centralizadoras da escravização e do comércio de escravos, não obstante, em alguns casos raros e não generalizados, a dispersão possa ter ocorrido.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

4. A TRAVESSIA DO ATLÂNTICO



A maneira como os escravos eram transportados na viagem transatlântica sempre foi relacionada com a taxa de mortalidade do tráfico negreiro. Sendo adquiridos na costa africana, os escravos com destino à América atravessariam o oceano em uma jornada que seria conhecida como travessia do Atlântico. A maneira como esses escravos eram transportados e a mortalidade entre eles sempre foi objeto de estudo sobre o tráfico negreiro no Atlântico. Segundo Klein (2006), a literatura popular afirma que a travessia de escravos era unicamente prejudicial e muito mais desumana do que qualquer tipo de horror da vida escrava. Os primeiros abolicionistas perceberam que esta parte do tráfico poderia ser mais facilmente atacada, e que os traficantes e os negociantes de escravos poderiam sofrer punições, mas a classe escravocrata das colônias americanas não poderia ser facilmente atacada.
A travessia marítima levava em média um mês da África até o Brasil e dois meses da costa da África Ocidental até o Caribe e América do Norte. Porém a maioria dos escravos passava de seis meses a um ano esperando o embarque em navios europeus desde a sua captura, com o tempo de espera a bordo de três meses, em média.
A prática européia de registrar detalhadamente e a regulamentação governamental do tráfico negreiro transatlântico, proporcionaram a Klein (2006) abundantes informações sobre esta parte da viagem, em comparação com o movimento interno de captura africana que é pouco conhecida.
A mortalidade durante a viagem através do Atlântico tornou-se foco de muitos debates na Europa Ocidental com respeito ao tráfico de escravos, havendo preocupações não somente com a mortalidade de africanos no caminho, como as mortes de tripulantes. A hipótese do baixo custo dos escravos baseia-se na idéia que se tornaria lucrativo embarcar o máximo de escravos que o navio podia carregar e comprimi-los nos porões. Se algum escravo fosse entregue com vida, já seria lucro e poderia se aceitar a alta mortalidade dos demais. Porém Klein (2006) afirma que a aquisição de escravos na costa africana não era uma transação de baixo custo, tampouco os intermediários africanos eram figuras passivas. O mercado africano estava bem conectado ao mercado mundial e, na venda de escravos, exigiam como pagamento bens asiáticos, europeus e americanos. Quanto mais crescia a demanda européia, maior era a carga de bens que formavam o preço do escravo africano.
As estruturas da maioria dos navios negreiros que participavam do tráfico de escravos eram antiquadas. Esses navios haviam sofrido mudanças para participar do transporte de escravos possuíam convés parcial e plataformas no espaço abaixo do convés principal e acima do convés inferior ou entre os mesmos. A disposição interna dos navios era deixada aberta e seria dividida em diferentes plataformas, dependendo do número de idade e sexo dos escravos a serem carregados. O alto índice de mortalidade é atribuído à falta de espaço e o longo tempo no mar durante a travessia, que resulta no alastramento incomum de doenças.

Entretanto, Klein (2006) apresenta outro fator significativo para a alta taxa de mortalidade. Ele afirma que alguns portos africanos eram mais afetados pela malária e pela febre amarela do que outros. Outras regiões africanas, de tempos em tempos, eram afetadas por alterações ecológicas ou crises políticas que afetavam diretamente a produção e a distribuição de alimentos, que por sua vez, enfraquecia a população que migrava, criando ambientes com doenças mais intensas.

Embora o grande nível de mortalidade no mar fosse, em grande parte, definido pela experiência a bordo do navio, as diferenças na taxa de mortalidade na travessia do Atlântico com base nos portos de desembarque na África refletem mais provavelmente as condições africanas que as características dos navios das viagens marítimas a partir dessas regiões. Doenças locais, alterações ecológicas de longo prazo, mudanças de curto prazo no clima e condições de cultivo foram obviamente as influências mais importantes.
As primeiras experiências com a mortalidade muito elevada levaram os traficantes a reformar dois elementos básicos em sua atividade comercial. Primeiro, mudaram a dimensão do navio para que este fosse melhor projetado para navegar ao longo do litoral e nos africanos bem como para transportar os escravos com maior rapidez e eficiência para a América. A segunda mudança foi o abastecimento mais eficiente de alimento e água para os escravos, resultando em uma lenta evolução dos padrões comuns em todas as rotas e entre todos os trafiantes negros. Esses dois elementos foram vitais para o fornecimento de escravos saudáveis para a América, e tal informação era passada de traficante para traficante, atravessando fronteiras nacionais.
Apesar da violência e da morte fazerem parte do quotidiano da travessia da atlântica, a esmagadora maioria dos escravos chegou à América. Os europeus não eram humanitários, mas sabiam que os escravos deixados na América do modo mais saudável possível garantiriam bons lucros, determinando assim a natureza da travessia do Atlântico. Porém essa longa travessia não apagou a cultura ou as linguagens que os imigrantes africanos trouxeram consigo.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

3.2. A ORGANIZAÇÃO AFRICANA DO TRÁFICO DE ESCRAVOS

A escravidão era uma atividade implantada na África, antes mesmo da chegada dos mercadores europeus no final do século XV (Klein: 2006). O tipo de escravidão que existia até então naquele continente era um sistema interno, cuja configuração não se pode identificar, propriamente, como uma forma de exploração do trabalho, pois não se caracterizava como uma escravidão institucionalizada.

Os escravos podiam representar uma pequena porcentagem ou uma parcela substancial de uma população. Ao mesmo tempo em que o fator demográfico era importante, muito mais significativa era a posição dos escravos na sociedade e na economia. Sua função poderia ser essencialmente social, política ou econômica, ou ainda alguma combinação destas. Na função política podiam ser utilizados no exército e na administração, na função social geralmente eram encontrados em papéis domésticos ou sexuais e, por fim, na atividade econômica estavam envolvidos na produção.

Para Lovejoy (2002), a escravidão interna africana como aspecto menos importante da sociedade deve ser diferenciada da escravidão como uma instituição, pois nos lugares onde poucas pessoas possuíam escravos a escravidão era incidental à estrutura da sociedade e ao funcionamento econômico. O regime escravagista tornou-se importante quando os escravos foram extensivamente na produção, no monopólio do poder político, ou na servidão doméstica. Nessa época predominava-se a preferência por escravos do sexo feminino. Essa preferência se explica pela sua utilização na função de concubinas produzindo mais escravos através da reprodução. A compra de mulheres e crianças eram mais valiosas devido à lógica da reprodução e por serem de fácil assimilação às estruturas de parentesco. Existe uma íntima conexão entre o fenômeno da escravidão e o continente africano, não apenas como um cenário das mais antigas regiões, onde a escravidão era habitual, mas como posteriormente a principal fonte de escravos para o mundo islâmico, para a Índia e para as Américas.

O suprimento de escravos para o tráfico atlântico, depois do século XVI, reestruturou a organização das sociedades africanas, modificando o estilo da escravidão doméstica, transformando-a em escravidão de larga escala. A escravidão tornou-se um importante fenômeno social, quando os estados africanos passaram a utilizar os escravos, extensivamente, na produção, como instrumento do poder político, ou na servidão doméstica, inclusive nos serviços sexuais. Esses fatores demandavam uma oferta regular do comércio escravagista, além do número de africanos aprisionados ter aumentado consideravelmente, passando a afetar a organização social e econômica. Formaram-se grupos africanos que se especializaram na captura de escravos, visando um fim comercial e os Estados africanos se burocratizaram para atender aos interesses hegemônicos, assim como formaram seus exércitos para controle social e conquista de cativos, através da guerra.

Klein (2006) ressalta o paradoxal fato de que a maior parte da mão-de-obra utilizada na captura de escravos era formada por escravos guerreiros, receptores de privilégios materiais e sociais, mas pertencentes ao Estado e devendo obediência e lealdade exclusivas ao rei, mesmo sendo seus conselheiros políticos de confiança. Instituía-se nessas sociedades a escravização em massa, pois existia nesses estados africanos uma rede comercial e um mercado internacional de escravos, destinados ao comércio transaariano e ao tráfico internacional, possibilitando a circulação de grande quantidade do bem móvel humano.

A comercialização de escravos com europeus dava-se principalmente através de proprietários africanos locais e a troca de bens por escravos representava um mercado real por definição. A partir de então se difundiu a prática de ataques a vilarejos e raptos de pessoas, com o incremento de sistemas internos de comercialização para um mercado externo emergente. Os compradores europeus eram totalmente dependentes dos vendedores africanos quanto ao fornecimento de escravos, e os negociantes africanos não tinham o menor interesse em permitir que os europeus se expandissem para o interior.

Em Angola, conquista cuja economia era movimentada sobre tudo pelo tráfico de escravos, os portugueses encontraram populações organizadas que se opuseram decisivamente à sua expansão rumo ao interior. Os povos litorâneos formam uma sólida barreira e muitas vezes atuaram como intermediários na compra e venda dos escravos que vinham do interior — como foi o caso de muribe da costa de Loango que, antes de 1800, já desempenhavam o papel de intermediários no tráfico ultramarino de escravos (...).[1]

Segundo Thornton (2004), o exame da dimensão organizacional do comércio africano com a Europa revela que ele era o reflexo do comércio da Europa com a África. Ambos os parceiros buscavam um comércio sob o controle do Estado, que tentasse eliminar ou controlar os efeitos dos mecanismos de mercado como a competição, na expectativa de assegurar o máximo de rentabilidade para o comércio. O comercio foi controlado pelos respectivos estados dos países da África e da Europa, embora os aspectos econômicos de oferta e de demanda, e a necessidade de recompensar a iniciativa privada não pudessem ser totalmente negligenciados; isto sempre foi visto como algo secundário em relação ao objetivo principal de controlar os participantes do tráfico de escravos, o que significava usar o comércio como meio para aumentar a receita dos Estados.

[1] RODRIGUES. Op. cit. p.97

terça-feira, 11 de agosto de 2009

3. O TRÁFICO DE ESCRAVOS NO ATLÂNTICO

Antes do mundo industrial a maior e mais complexa iniciativa econômica conhecida foi o tráfico de escravos. Segundo Klein (2006), este foi o maior deslocamento de pessoas e bens através do Oceano Atlântico com destino a outros continentes. O comércio marítimo do tráfico negreiro envolvia uma frota anual de centenas de navios tornando-se um negócio custoso e absorvendo grande volume de capital europeu. O tráfico envolveu complicados acordos financeiros de capital e crédito entre a Europa, África e América, sendo explorado por um número grande de comerciantes que competiam em um mercado livre.

Segundo Lovejoy (2002), as primeiras caravelas portuguesas se aproximaram da costa da África no Atlântico chegaram em 1440, alcançando o Rio Senegal em 1445, abrindo uma rota paralela às transaarianas controladas pelos mulçumanos. Inicialmente, adquiriam os escravos (juntamente com ouro, marfim e especiarias) e estes eram levados para a Europa Meridional para serem empregados como domésticos. Posteriormente, os escravos eram vendidos para plantadores de cana de açúcar do Mediterrâneo e, após esta produção se espalhar pelo Atlântico, outros eram negociados com compradores da Madeira, das Canárias e das Ilhas do Cabo Verde.

A África não estava sob qualquer pressão comercial ou econômica européia para negociar com escravos (Thornton: 2004). Os africanos já aceitavam a instituição da escravidão em suas próprias sociedades, servindo como força produtiva. Para Thornton (2004), a característica especial da escravidão interna, na qual o escravo era uma propriedade produtiva privada levou à disseminação da escravidão.

Para Klein (2006), embora os escravos fossem levados da costa africana por comerciantes europeus desde meados de 1440, como parte das exportações de ouro e marfim, a organização de um tráfico intensivo levou vários anos para se desenvolver. Inicialmente, a África foi uma modesta fonte de escravos para a Europa até o início do século XVI. Após a colonização e exploração européia na América, o tráfico de escravos finalmente se tornou uma importante atividade econômica.




3.1. A ORGANIZAÇÃO EUROPÉIA DO TRÁFICO DE ESCRAVOS

Nos primórdios, a estrutura européia do comércio de tráfico de escravos foi controlada pelos Estados. Estes estabeleciam taxas, subsídios e contratos de monopólio para fazer o tráfico funcionar e para controlar o fluxo de escravos que saiam da África para a América ou Europa. O Estado controlava e, principalmente, organizava o tráfico negreiro, sobre o qual estabelecia um monopólio, e fornecia auxilio ao comércio nas colônias européias.

A condição determinante para o desenvolvimento ou não do comércio de negros nas colônias européias da América era a capacidade das mesmas de pagar por seus escravos. Os comerciantes espanhóis faziam o uso da prata e do ouro que eram extraídos pelos índios para comprar seus escravos. Os portugueses possuíam uma economia bastante desenvolvida, baseada na cana de açúcar e no uso da mão-de-obra escrava indígena, o que lhes forneceu capital para comprar e trazer escravos para suas colônias.

No início do século XV até o século XVI a Coroa Portuguesa dominava o monopólio na África onde negociava ouro, marfim e escravos. Os estabeleceram comércio em Angola e um entreposto comercial importante em São Jorge de Mina. Essas posições continentais foram somadas às várias ilhas africanas submetidas à colonização portuguesa, das quais a mais importante foi São Tomé e Príncipe localizada no litoral da Baía de Biafra. Com o domínio destas posições estratégicas, Portugal comercializou aproximadamente quatro mil africanos por ano abastecendo não somente suas colônias, mas fornecendo escravos também para as colônias hispano-americanas. O monopólio português foi desafiado pela presença dos traficantes franceses, britânicos e holandeses que no século XVI passaram a visitar intermitentemente o litoral africano, no entanto para esses primeiros traficantes europeus os principais interesses eram o ouro e o marfim, sendo os escravos ainda algo secundário.

Os holandeses foram os primeiros a abalar seriamente o monopólio português no Atlântico (Klein: 2006). Eles fundaram no ano de 1621 a companhia holandesa das Índias Ocidentais tendo como objetivo conquistar as posses americanas e africanas de Portugal. A princípio eles se esforçam em atacar as embarcações portuguesas e espanholas com a finalidade de destruir seus oponentes e possuir suas riquezas, mas logo este tipo de pirataria foi abandonado e passaram a comercializar diretamente na África. Após os holandeses conquistarem temporariamente os fortes litorâneos portugueses em Angola, a Companhia das Índias Ocidentais, a WIC, através de seu monopólio, dominou indiscutivelmente o tráfico no Atlântico entre 1630 e 1650. Klein (2006) afirma que os holandeses dominaram o tráfico de escravos na primeira metade do século XVII. Diminuíram drasticamente a presença portuguesa, fornecendo à América cerca de dois mil e quinhentos escravos por ano (em 1644 esse número chegou a um pico de seis mil e novecentos escravos), vindos em sua maioria da Costa da Guiné Inferior e das regiões de Loango e Angola. A WIC conquistou vários territórios de Portugal, inclusive fundando no Brasil uma importante produtora de cana de açúcar e também uma importante rede de tráfico de escravos na Costa do Ouro em Angola.

Outros países europeus aumentaram seu interesse em participar do lucrativo comércio de escravos. Os franceses estabelecem ligações comerciais com a região da Senegâmbia, os ingleses demarcam os limites geográficos de Serra Leoa ou Costa da Guiné Superior e os holandeses se fixaram na Costa do Ouro. Apesar de determinadas nações européias tentarem manter um monopólio comercial com seus sistemas de fortes ou de feitorias comerciais não fortificadas, foram apenas os portugueses que colonizaram efetivamente algumas regiões da África. Entretanto, segundo Klein (2006), até Portugal teve que operar dentro dos padrões da política da nação africana, tendo que muitas vezes unirem forças com várias nações locais para preservarem seu domínio. Os fornecedores africanos não queriam nenhuma espécie de monopólio, pois não era comercialmente interessante para eles diante da acirrada e disputada competição européia. O comércio constante criou zonas de influência, mas nenhuma costa africana foi exclusiva de alguma nação.
Os europeus, com exceção da Espanha e Portugal, começaram a comercializar através de companhias de monopólio, a exemplo dos holandeses e ingleses que haviam alcançado um grande sucesso. Essas companhias eram empresas mistas, umas subsidiadas pelo Estado e outras privadas. Elas tinham como objetivo conquistar determinadas regiões, fornecer escravos para trabalharem nas colônias e ganhar capital. Muitas companhias foram fundadas para atuarem no comércio de prisioneiros africanos, sendo amplamente usadas por vários países europeus, tornaram-se responsáveis por grandiosos deslocamentos através do Oceano Atlântico de escravos da África até a América.

Os franceses fundaram a Compagnie des Indes Occidentales e a Compagnie Du Sénégal, subsidiadas pelo Estado e que possuíam o direito de comercializar tanto na África quanto na América. Utilizando capital privado, os ingleses fundaram a Real Companhia Africana da Inglaterra que era a responsável por todo o tráfico inglês de escravos, assim como o comércio de mercadorias com a África. Apesar de algumas diferenças entre estas companhias, nenhuma delas foi adiante. Para Klein (2006), isso se deu pelo fato de que elas assumiram determinados compromissos que não as favoreciam. Um exemplo é o fato de que muitas vezes eram obrigadas a fornecer um determinado número de escravos, o que resultava em custos maiores. Posteriormente, as companhias acabaram por fracassar e foram substituídas por livres comerciantes de suas respectivas nações. Embora substituídas, elas arcaram com os custos da exploração comercial e da criação de contatos, créditos e práticas navais que se tornariam normas para os comerciantes que as sucederam.

Uma viagem da Europa para a África levava de três a quatro meses e os traficantes europeus estabeleciam a área que desejavam chegar. Esta área era definida por seu desenvolvimento local e internacional. Era intensa a competitividade por escravos na África, com nações européias disputando uma com as outras as principais regiões africanas, com a finalidade de estabelecer o seu comércio de escravos.
Este comércio tinha a participação ativa dos próprios africanos. Eram eles que capturavam e depois vendiam os escravos para os europeus. Eles se dirigiam para o litoral ou para a margem de um determinado rio e ali então efetivavam as suas vendas. Essa locomoção de escravos para o litoral ou para a margem de algum rio não era algo custoso e sim barato. Os africanos não se interessavam em conservar nos fortes uma grande concentração de escravos, pois mantê-los reclusos era mais custoso e aumentava o seu preço, dependendo do tempo em que eles ficassem ali esperando para serem vendidos.

Quando o navio negreiro chegava ao seu destino eram preparados os registros de saúde dos escravos para que os mesmos fossem comercializados. Algumas vezes eram colocados à venda diretamente do navio e outra vezes eles eram levados para mercados especiais de venda de escravos. Quando a demanda por escravos era grande, os que chegavam aos navios eram rapidamente vendidos em alguns dias. Somente os doentes é que levavam mais tempo para serem negociados e muitas vezes eram comprados por um preço mínimo e entregues aos cuidados de mulheres negras livres, que tratavam deles até que ficassem bem para depois serem vendidos.

Os termos de venda também não era algo fácil nessa época. Quando o preço era acertado, era pago na hora vinte e cinco por cento do valor dos escravos e o restante era pago depois com os bens coloniais, já que dinheiro era algo escasso nas subdesenvolvidas colônias. A literatura tradicional afirma que o lucro no tráfico de escravos era uma realidade, existindo sempre um número grande de comerciantes que queriam investir dinheiro nesse empreendimento e que as nações africanas também lucravam, com os escravos que eram vendidos. No entanto Klein (2006) afirma que o tráfico de escravos era de fato um monopólio europeu do qual os africanos não tinham tanto lucro como a literatura afirmava e que até mesmo os lucros do tráfico para os próprios europeus podem ser questionados, não sendo considerado tão alto assim para os padrões da época.