
Apesar dos questionamentos em relação à lucratividade do Tráfico de Escravos, foi ele que alimentou, com mão de obra, o sistema produtivo colonial americano. E foi esse tráfico que integrou de uma forma direta toda África mais ao sul à Europa. Antes disso, apenas o norte da África estava ligado diretamente ao clássico “Velho Mundo Europeu”; mas essa África mais distante, já mantinha relações com o Norte da África, mais próxima e diretamente envolvida nas relações com o Mediterrâneo.
Na África, a escravidão era comum; fazia parte do ambiente das etnias africanas. Uma África que comerciava já havia antes de iniciar o Tráfico Negreiro do Atlântico. Havia caravanas por entre terras, florestas, savanas e desertos, com populações em constante troca cultural a que proporcionava o comércio, favorecendo a receptividade de novas tecnologias e materiais, além dos gêneros comercializados e trocados. No continente africano, nos parece constante um movimentado batuque de interação entre as diversas áreas geográficas e suas variadas etnias, em diversos graus de desenvolvimento, ora rivais ora associadas, com reinos, impérios, hierarquias, políticas, guerras, comércio.
A África já vinha produzindo escravos, principalmente através de conflitos e discordâncias entre as etnias. Mas, a demanda cresce através da inserção da América no contexto do Mercantilismo europeu, e, na África, também cresce a produção de escravos.
A situação confusa do Mediterrâneo, devido à expansão árabe, sobretudo, e todas as dificuldades da rivalidade e da competitividade marítimo-mercantil, a organização das mornarquias nacionais em Portugal e em Espanha, o desenvolvimento de tecnologia, e a experiência ibérica nas navegações, o surgimento de uma burguesia e o precipício em que se encontrava o Feudalismo e o Império Romano do Oriente, tudo isso facilita, colabora, aciona e condiciona a um novo caminho para as Índias. Para isso vai-se, de início, de uma “ponta” da Europa (Portugal), para a África. Inicia-se o contorno da África.
Em início, a estratégia dos europeus era a da pilhagem, da invasão à força, conforme realizavam ao norte da África, no mundo árabe. De início também, obviamente, buscavam outro, como se a corrida, fosse além do comércio em si com Oriente, o acúmulo do ouro, própria do metalismo que caracteriza o Mercantilismo. Nessa época, esses capitães mercantes e guerreiros eram financiados pela Monarquia. Pilhavam pontos litorais levando ouro, e tudo que quisessem que fosse valioso, e fazendo escravos.
Mas, com o tempo, a estratégia muda, quando os europeus percebem que essa África abaixo do Norte poderia se tornar franca ao comércio europeu; a estratégia da invasão e pilhagem se torna, então, antiquada; passa a vigorar o comércio amistoso diretamente entre africanos e europeus.
A abertura de um comércio atlântico, possibilitado com a implantação de colônias européias de exploração na América de um lado, e a África como fornecedora de gado-humano de outro, ligadas por um comércio marítimo intenso liderado pela Europa compunha uma nova situação do Mundo, não mais restrito ao Mar Mediterrâneo.
Com o tempo, nos séculos XVII e XVIII, o comércio de uma forma geral se intensifica. E se o plano europeu de colonização da América se baseava no escravismo, crescia a demanda de escravos, e crescia o comércio também na África. Na África, os desentendimentos entre as etnias e a pré-existência da escravidão eram facilitadores; e, comunidades do litoral da África (que estabeleceram contato com os navegadores europeus), sobretudo, passaram a demandar mais escravos. Iniciou-se então uma produção de escravos maior. E o escravo tomava maior importância nos produtos de exportação. Por essa época, além de Portugal e Espanha, outros países já se interessavam pelo Comércio do Atlântico, inclusive o de escravos; ao mesmo tempo, os Estados nessa fase já não financiavam diretamente as expedições marítimas, pois companhias de comércio já estavam estabelecidas.
Pode parecer estranho hoje, mas na época era aceitável o escravo ser entendido como bem, como produto, tal qual uma peça de gado, pois assim o era. E a produção de escravos para exportação enquanto a demanda não cessa.
Mesmo com abolição das exportações, e com a ocupação britânica, em 1850, no interior do continente, a escravidão e o comercio se faziam presentes; uma das causas disso foram guerras iorubanas, agravando a situação do interior e se fazendo, ou melhor, se produzindo mais escravos.
Quando a Europa, após as Revoluções Industrial e Francesa, pressiona à América ao fim do escravismo, na África, a demanda por uma exportação de escravos termina, saindo de campo os europeus traficantes de escravos. Mas a escravidão permanece em África, até o século XX, internamente, conforme era praticada antes mesmo da exploração de negros pelos Europeus. Depois de ouro, marfim e especiarias, após produzir escravos, a África passa agora a ter como foco da exportação óleo de palmeira.
Percebemos que na África, um comércio interno era integrado a um comércio de exportação. E as rotas terrestres de comércio levavam, além dos escravos, outras mercadorias no lombo, por esses mesmos, carregadas. Em linhas gerais, pudemos perceber nessa pesquisa, duas Áfricas que se apresentavam integradas: a do interior e a do litoral; a primeira que produz e fornece escravos e produtos diversos ao litoral, dele recebendo o que lhe serve ao consumo e propriedade; a última, que recebe do interior aquilo que deseja consumir e obter, além dos produtos que deseja exportar (escravos inclusive); juntam-se a tudo isso, as relações comerciais com o norte da África. As diversas “áfricas”, integradas ao mercantilismo interno, buscavam lá, talvez, a sua balança comercial favorável, no “jogo” de um mercantilismo interno.
Podemos, assim, dizer que o tráfico negreiro do Atlântico se estruturava por uma rede complexa de relações comerciais africanas e européias, nutridas por regras de jogo do mercantilismo. Como num ciclo, todo o comércio marítimo do Atlântico, e o Negreiro, ligavam três continentes: África, Europa e América. Numa ponta a América, produtora de bens de exportação e receptora de mão de obra escrava; noutra ponta a África produtora e exportadora dessa mão de obra. Liderando e realizando o comércio estavam os europeus.
Talvez ainda seja correto considerar a mão de obra africana sustentáculo do sistema colonial americano; e este o patrocinador da Revolução Industrial na Europa, porque foi com capital acumulado que a Inglaterra se lançou ao seu futuro, e porque fora com o braço escravo que se produzira e se extraíra a riqueza da terra colonial européia na América.
O Tráfico Negreiro, horrível, causador de tristeza e dor para tantos escravos possibilitava a colonização da América, introduzia a África Subsaariana direta e constantemente às relações com a Europa, que mais enriquece com a exploração de suas colônias nessas Américas e com a exploração de povos africanos escravizados aqui negociados.
BIBLIOGRAFIA
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LOVEJOY, Paul. A Escravidão na África – Uma História de suas Transformações. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.
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