terça-feira, 30 de junho de 2009

LUTERO AINDA FALA - XI



Avaliação da Exegese Gramático-Histórica de Lutero

Talvez a melhor maneira de avaliarmos a importância e a influência do sistema interpretativo de Lutero seja reconhecer o seu impacto na História da Interpretação que se seguiu à Reforma. A interpretação bíblica feita por estudiosos, comentaristas, exegetas e pregadores reformados conservadores, desde Lutero até hoje, tem sido controlada pelos princípios gerais de exegese originados com o reformador. Após a Reforma, um tipo de escolasticismo dogmático passou a dominar a exegese reformada e luterana. No período subseqüente, muitos estudiosos começaram a criticar de forma devastadora esse controle do dogmatismo sobre a exegese bíblica.No século dezoito o alemão H.A.W. Meyer inaugurou o que se chama "exegese filológica", onde cada palavra do texto original é dissecada, como uma cobaia no laboratório! O texto é submetido a uma análise meticulosa, palavra por palavra, e seu sentido teológico exato determinado à luz do contexto histórico, lingüístico, e cultural. Através deste exame detalhado e meticuloso do texto bíblico, os comentaristas procuram determinar a intenção de Paulo, a qual, dentro do sistema gramático-histórico, é o único sentido legítimo de uma passagem. Com o surgimento de edições dos textos bíblicos originais com aparatos críticos cada vez mais sofisticados, não somente o texto, mas as variantes mais importantes passaram a ser também analisadas e interpretadas. Esta é a abordagem que encontramos na maioria dos comentários críticos do Antigo e Novo Testamentos do século passado e deste século. Apesar dos pressupostos racionalistas de muitos comentaristas e estudiosos, a ênfase neste período à intenção do autor reflete a influência da exegese de Lutero.Certamente a exegese moderna tem avançado além de Lutero, através das ferramentas da crítica textual, da filologia, e da lingüística — ferramentas que não estavam disponíveis ao grande reformador. E num certo sentido, tem levado o alvo de Lutero ainda mais longe que ele; pois enquanto Lutero aqui e acolá se deleitava em alegorizar algumas passagens, o estudioso moderno envolvido em interpretação bíblica gramático-histórica é mais comprometido com o sentido literal do texto bíblico. E, neste sentido, é mais como Calvino. Basta que se contrastem as interpretações de Lutero e Calvino do Salmo 8.Finalmente, existe a tentação de atribuirmos a Lutero a tendência moderna que existe em alguns círculos eruditos de uma nova apreciação pelo sentido "espiritual" de uma passagem, tendência esta inaugurada por Schleiermacher e desenvolvida pela "nova hermenêutica." Mas devemos certamente resistir a esta tentação. Lutero não reconheceria como sua filha legítima uma hermenêutica que procura o significado de um texto na mente da pessoa que o lê.

Podemos Aprender com Lutero?

Como afirmamos no início deste artigo, a crise doutrinária que aflige a igreja evangélica brasileira nasce de uma hermenêutica defeituosa, de um sistema de interpretação que, à semelhança dos tempos antes da Reforma, procura sentidos no texto inspirado que vão além daquele pretendido pelo autor bíblico. Essa alegorização das Escrituras feita nos púlpitos de muitas igrejas evangélicas brasileiras tem contribuído para a disseminação de inúmeros erros doutrinários. À semelhança do período medieval, quando este tipo de interpretação serviu de ferramenta para legitimar biblicamente doutrinas católicas posteriormente rejeitadas pelos reformadores, a hermenêutica da alegoria tem servido no Brasil evangélico como suporte para as doutrinas as mais estranhas. As igrejas de libertação a têm utilizado para a formação de práticas como correntes de oração do tipo "trombeta de Jericó", "cajado de Moisés", e para a introdução de um "fetichismo" cristão, onde um elenco interminável de objetos — desde fitinhas roxas até copos d'água — são usados como emblemas da fé. No auge do "dente de ouro", pregadores evangélicos procuravam justificar o fenômeno a partir de textos bíblicos onde a palavra "ouro" ou "boca" estivesse presente. O "urro sagrado" (praticado em igrejas relacionadas com o movimento da "bênção de Toronto" e da "gargalhada santa") é defendido com uma alegorização de passagens bíblicas onde Deus é representado como sendo um leão.Em algumas situações, o princípio extraído alegoricamente do texto não chega a ser um erro doutrinário. É o caso do pregador mencionado no início deste ensaio, que extraiu à força da narrativa do desmamamento de Isaque o princípio bíblico correto de que devemos todos crescer e amadurecer na fé. Foi uma mensagem certa em um texto errado. Mas, a porta fica aberta para a infiltração do erro religioso, pois neste tipo de interpretação, o sentido do texto bíblico é deixado de lado, e o povo fica sem receber o genuíno leite espiritual da Palavra. Alimenta-se apenas das idéias criativas e da linguagem alegórica destes pregadores. Creio que o retorno a uma exegese cuidadosa do texto bíblico, à luz dos contextos históricos, da gramática e da sintaxe das línguas originais, produziria pregação expositiva das Escrituras, através da qual a igreja seria instruída, edificada, confortada e corrigida pela Palavra de Deus.Ao mesmo tempo, é preciso que se esclareça que este artigo não está defendendo que somente uma elite de eruditos, familiarizados com as línguas originais das Escrituras e com o ambiente religioso, social, histórico e político da Antigüidade, pode descobrir o verdadeiro sentido de uma passagem bíblica. Ao meu ver, na grande maioria dos casos, este sentido é evidente e claro nas próprias traduções para as línguas modernas, e está disponível a todo cristão genuíno que deseja se conformar com o sentido original, direto, e simples da passagem.Finalmente, acredito que toda aplicação das Escrituras para nossos dias (como ao final de um sermão) envolve uma certa medida de alegorização ou "espiritualização". Isto é inevitável, pois a aplicação exige que transponhamos a verdade bíblica para nossa própria situação. Mas mesmo aqui, devemos aprender com Lutero a controlar nossa aplicação pelo sentido gramático-histórico da passagem.

Rev. Augustus Nicodemus Lopes

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