quinta-feira, 6 de agosto de 2009

2. O TRÁFICO DE ESCRAVOS NO ATLÂNTICO: A EXPORTAÇÃO DE GENTE


O norte da África, sobretudo oriental, já era bem conhecido e já se desenvolvera na antiguidade, antes da era cristã: Egito, Mesopotâmia; o norte do continente, portanto, inseria-se nas relações comerciais do Mediterrâneo. Na região subsaariana, a sociedade se tornou mais complexa apenas posteriormente, ou seja, após a era cristã, quando houve maior desenvolvimento econômico, e proliferaram centros urbanos e se difundiram plantas, animais e tecnologia (especialmente de metais), a partir das savanas do Sudão até o Cabo da Boa Esperança.
De 200 a. C. a 500 d. C as culturas agrícolas, pastoris e mineradoras das regiões do norte da África vão avançando e alcançam todas a área do centro e do sul da África, transformando a paisagem humana. Antes dessa época, encontravam-se nessa área apenas sociedades agrícolas estratificadas, organizadas em vilarejos; eram já sociedades complexas, mas não havia centros urbanos desenvolvidos. Podemos dizer que na Europa, por essa época, terminava a Antiguidade e principiava a Idade Média: os romanos, que passaram a dominar o norte da África e de certa forma integraram quase (senão todo) todo o mundo conhecido já estavam em decadência.
(...) A fundição de ferro, por exemplo, que começou na África do Norte com a ascensão de Cartago, por volta de 1000 a. C. , alcançou a África Centro-Ocidental em 300 a. C., ao mesmo tempo em que a fundição do cobre chega a essa região. Assim, apesar da barreira de areia do Sahara, o movimento de idéias, pessoas e mercadorias continuava lentamente, mas de modo constante.[1]

Conforme Klein (2006), de 200 a. C. a 500 d. C. a integração das sociedades e das economias distribuídas na variada paisagem biogeográfica do continente africano (savana, floresta tropical, litoral e deserto) já estava plenamente desenvolvido, de forma que ao fim do século I d. C. a agricultura, o pastoreio, a mineração e os vilarejos fixos eram comuns. Com o passar do tempo, os mercados iam se ampliando, agrupando áreas mais extensas, e em circa 700 d. C., ao fim das migrações Bantu, a África passa a ter suas populações, etnias, razoavelmente acomodadas e estabilizadas em suas áreas (isso não quer dizer que não houvesse conflitos entre elas), tendendo, às futuras migrações a serem locais, exceto em relação ao tráfico de escravos e a grupos pastores que migraram devido a alterações climáticas.
Vários impérios foram se desenvolvendo a partir da intensificação do comércio, realizado, a partir desse tempo, em 300 d. C, em caravanas de camelo que fora domesticado, e do surgimento de cidades em torno dessas rotas e da atividade mineradora. O ouro africano já chegava à Roma em 300 d. C.
A partir do século VII d. C. o Islã na África do Norte, avança para Gana e outros impérios sudaneses. Enquanto a Europa Medieval e o ainda “sobrevivente” Império Romano do Oriente rivalizam, através das Cruzadas e de outros meios, com o mundo islâmico, no século X a XII, os impérios africanos que mantinham contato com o norte da África são islamizados, e fazem o islamismo avançar mais além, para o sul, até a Costa da Baixa Guiné, no século XIII.
No século XIV, os turcos otomanos dão impulso ao desenvolvimento islâmico, se expandindo para o ocidente, conquistando Constantinopla, capital do Império Romano do Oriente, em 1453, marcando o fim do período histórico medieval; no Ocidente, realizam investidas por terra e por mar: conquistaram os Bálcãs, atacaram Viena e a Itália. Dirigindo-se à África do Norte, tomaram o Egito, em 1517.
Paralelamente, Portugal e Espanha, devido aos contatos que também tinham com o mundo islâmico, buscaram expandirem-se pela África. Portugal toma primeiro Ceuta (1415), no norte, depois, Tanger; a partir daí vai descendo em direção ao sul, pela costa noroeste africana, chegando a Agadir, em 1500. A Espanha sistematicamente investiu, em fins do século XVI, em muitas cidades do Magrebe e seu oeste, além de se encaminhar à Sicília e à Península Itálica. Entretanto, os grupos locais africanos e árabes tomaram de volta os pontos de conquista européia.
Durante o tempo que os portugueses mantiveram domínios na África, passaram a tomar conhecimento elementos subsaarianos que participavam nas rotas comerciais do Sahara. No século XV, os portugueses vão explorando a costa ocidental africana.
Devido à sua longa experiência no comércio da pesca no Atlântico e à recente estabilização de sua sociedade, que deu origem às classes de mercadores um importante papel dentro do país, Portugal foi o primeiro estado da Europa Ocidental a expandir-se além da área central do Atlântico e do Mediterrâneo. Com bases operacionais em seus portos na África do Norte e nas ilhas Açores e Madeira, no Atlântico, os portugueses agora dirigiam suas famosas caravelas para o Atlântico Sul. Entre 1430 e 1490, eles explorariam a costa ocidental africana, desde Agadir até o Cabo da Boa Esperança. No começo de 1440, os primeiros marinheiros portugueses retornaram depois de navegarem para além do Sahara. Em algum momento antes da década de 1470, eles haviam aprendido a navegar para dentro do Atlântico Sul, a fim de apanhar os ventos alísios, para o noroeste, que os levaram até os Açores e que tornavam o retorno da viagem viável para explorações mais ao sul. Ao final da década de 1480, eles haviam chegado ao Cabo da Boa Esperança.
Assim, a África Ocidental abriu-se para o contato europeu direto e o litoral atlântico anteriormente fechado subitamente emergia como uma rota comercial alternativa para as sociedades africanas. Os portugueses foram rápidos em explorar essa nova rota mercantil. Na década de 1450 eles obtiveram do Papa direitos cristãos exclusivos para negociar com o Cabo Bojador, no sul da África. [...] Em 1505 haviam construído o forte de Sofala na costa leste de Moçambique, leste da África.[2]

Conforme Klein (2006), de início, os portugueses tratavam os africanos do mesmo modo que os norte-africanos com os quais já mantiveram contato, assim, realizavam invasões nas cidades ao longo da costa africana, saqueando e escravizando os habitantes. Mas o tráfico começa quando eles percebem que os africanos tinham escravos, e havia uma aristocracia africana: em 1441, no Cabo Bojador, capturam dois membros aristocráticos e seus escravos; em 1443 retornam e trocam os dois nobres por ouro e 10 escravos negros; depois, em 1444 e 1445, mercadores e nobres do Algarve passaram a organizar expedições de invasão para o local em busca de escravos que passaram a ser vendidos por europeus. Os portugueses sofreram freqüentes derrotas nessas invasões, que também eram militarmente repelidas pelos africanos.
Quando os portugueses resolvem realizar um comércio pacífico na base da troca de gêneros (bens europeus por escravos africanos), ao invés de pilhar, invadir e raptar, foram bem recebidos pelos africanos, e, assim, em torno das ilhas da costa da África, iam se estabelecendo: feitorias (entrepostos comerciais), colônias e fortes.
Bem antes de 1500 a geografia da África Ocidental estava familiarizada e os viajantes portugueses já haviam visitado três das mais importantes jazidas de ouro lá existentes. O ouro era o principal artigo que os portugueses buscavam no comércio com a África, considerando os escravos e outros produtos locais como itens comerciais secundários. [...] Em seu desejo pelo ouro africano, que teve importante impacto na realeza européia, os portugueses estavam querendo satisfazer as demandas locais de qualquer bem desejado, procurando-os em todo lugar, mesmo do Norte da África até Benin. A maioria dos bens importados pelos portugueses já havia sido trazido para esses povos da costa e do interior através de rotas terrestres antes da chegada os europeus. As principais mercadorias importadas do comércio português para Costa do Ouro eram tecidos tingidos da África do Norte e lingotes e braceletes de cobre, todos itens que os consumidores e ferreiros locais costumavam adquirir de fontes muçulmanas. Foi o volume desses bens que foi novidade para esses mercados na África Ocidental, e não os bens em si. Assim, o principal impacto da vinda dos europeus para a África foi a adição de novas rotas comerciais ao invés de produtos estrangeiros ou exóticos. [...] Esse comércio foi tão intenso e difuso na maior parte da África Ocidental, que a língua portuguesa rapidamente tornou-se a base de um jargão comercial que era falado por toda a região.[3]

A Europa entrava em expansão no século XV, apesar de ser mais pobre em relação ao Oriente: China, Índia e Ásia Menor. E a abertura de mercado com a África e a sua manutenção ao longo do tempo, a exploração contínua da África, permitiu o desenvolvimento de políticas de dominação: colonização e imperialismo. O monopólio desse comércio, dessa expansão, dessa dominação da África pelos europeus é logo “quebrada” no séc. XVI; fervilhando na Europa a burguesia, o renascimento, a reforma, a usura, o mercado e o trabalho livre (este na Europa!), porque para as colônias na América, principalmente, e para todos os outros tipos de trabalho, dos mais sujos, mais pesados, até a exploração sexual, buscariam os europeus na África quantas peças africanas lhe fossem úteis dentro de seu orçamento – essas peças: os escravos africanos.
Segundo Klein (2006) até o século XVI, o tráfico de escravos no Atlântico ainda era relativamente pequeno, não havendo grande impacto no comércio interno escravagista africano que era muito maior, mas a partir do século XVII, as rotas do Atlântico dominaram o comércio escravagista, mas até então, os escravos não eram o produto mais valioso que os europeus buscavam na África; o item africano de maior valor para os europeus ainda era o ouro, seguido de marfim, peles, pimenta, cera de abelha e látex; os escravos era uma pequena parte do total das exportações africanas.
No período anterior ao século XVIII, a demanda americana era constante, mas não excedia a oferta local, de modo que o preço dos escravos era relativamente estável. Isso significava que os europeus podiam adquirir escravos a partir da regular escravatura local através de investidas limitadas ou de ações legais em uma determinada região, além de grandes quantidades de escravos que eram produzidas em guerras locais. Em todos os casos desse tipo as guerras eram provocadas por conflitos políticos, econômicos ou religiosos locais, entre povos rivais. O subproduto dessas guerras era, é claro, a escravidão masculina dos povos derrotados que poderiam ser lucrativamente eliminados através da migração forçada. Essa origem ocasional dos prisioneiros de guerra explica o motivo pelo qual algumas regiões entrariam e sairiam do tráfico de escravos no Atlântico ao longo do tempo, muitas vezes sem aumento ou diminuição na demanda européia de escravos.[4]

Mas a crescente demanda americana por escravos, após meados do século XVIII, alteraria o quadro do tráfico de escravo. Apesar de ser inviável aos europeus forçarem as regiões africanas a entrar para a rede de tráfico sem desejarem (por isso muitas permaneceram fora do comércio escravagista), os preços cada vez mais elevados de escravos estimularam, na África, uma “produção” interna de escravos para exportação; porque os africanos eram impulsionados pela maior demanda americana, devido ao crescimento do consumo europeu dos bens produzidos pelo sistema escravocata americano; esses preços altos estimularam muitas regiões africanas costeiras a ingressarem no tráfico e a se desenvolverem a partir desse comércio, inclusive mantendo-o como principal atividade econômica. Assim, guerras se tornaram mais comuns, com objetivo de obtenção de escravos para o tráfico no Atlântico.
(...) Redes inteiras de tráfico, especialmente nas regiões do Congo e de Angola, assim como na Baía de Biafra, produziram um volume constante de escravos para a América e grande parte das economias locais tornaram-se intimamente atreladas com o fornecimento de escravos para a economia atlântica.[5]

O avançar do século XIX ao seu fim, a massificação da produção de bens pelas indústrias na Europa, e a liderança Inglesa no mundo da Revolução Industrial (e na necessidade de amplo mercado consumidor), o avançar da Revolução Francesa e do Iluminismo (em sua máxima: liberdade, fraternidade e igualdade) levariam ao fim do tráfico de escravos e uma exploração futura diferente, justificada com a moral da civilização: o imperialismo. O “novo” capitalismo não admitiria escravos, porque estes deveriam ser tornados trabalhadores livres nas Américas, constituindo mercado consumidor. Na África, os africanos, para os europeus, deveriam ser “civilizados”, diga-se, europeizados, para manterem-se fiéis aos produtos que produziam, e para justificaram a estrutura de dominação que toda Europa montaria em África. A África era repartida pelos europeus, que impunham seu imperialismo. E findava o tráfico de escravos do Atlântico, iniciando-se uma nova forma de exploração da África.
Segundo Klein (2006), na África, o tráfico intenso dos séculos XVIII e XIX, apesar de não ter sido uniforme, pois variava conforme as localidades, causou alterações dos padrões tradicionais de governo e comércio, conflitos dinásticos, guerras e migrações de guerra, abandono de terras produtivas por camponeses que se sentiam indefesos em relação às constantes invasões de escravização.
O escravismo africano, interno, precedera ao tráfico de escravos do Atlântico, que foi um processo do período moderno; entretanto, após terminar a exportação africana de escravos, em tempos contemporâneos, na África, internamente, no século XIX, permanecia a produção interna de escravos, que juntamente com trabalhadores livres produziam óleo de palmeira para exportação, substituta da “produção de escravos para exportação”.
O Tráfico era apenas pequena parte da economia africana, pois a maioria das nações da África Ocidental substituiu a produção de escravos para exportação por outros produtos, além do óleo de palmeira; além disso, o mercado interno demandava por uma produção mais elevada de produtos e bens culturais. Mesmos as caravanas que levavam escravos e marfim para o litoral, retornavam ao interior com produtos da região da costa africana, como “exportações” para o interior do próprio continente, movimentando um mercado constante.
Segundo Klein (2006), o Tráfico de escravos do Atlântico influenciou durante os séculos XV a XIX muitas regiões da África Ocidental, mas ele foi apenas parte da complexa história econômica, social e política do continente africano. Se o Tráfico Negreiro começou e terminou através da própria intervenção da Europa, isso não significou o fim das relações entre ela e a África, porque a partir de seu fim, dá-se o início à Colonização da África; outrossim, a própria escravidão interna na África não terminou com o fim da exportação de escravos para as Américas, porque ela se manteve até o século XX na África. Mas a exploração, de qualquer maneira, permanece de outra forma, de outros modos, com outros nomes.
Talvez o significado do escravo na África fosse diferente do escravo para as Américas. Nas Américas, e, incluindo-se aí o Brasil, o escravo parece que era mais ainda estrangeiro, talvez fosse mais ainda considerado inferior, porque negro e estranho, estando mais ainda isolado, em um continente distante, que não era o seu. Na África, mesmo quando escravizado, por etnia diferente da sua, e negociado, de certa maneira, o escravo, pelo menos, estaria, talvez, mais integrado ao sistema cultural próprio da África, o seu continente, o seu ambiente.

[1] KLEIN, Hebert S. Op.cit., p.48.
[2] KLEIN, Hebert S. Op. cit., p. 51.
[3] KLEIN, Hebert S. Op. cit. pp. 52-53.
[4] KLEIN, Hebert S. Op.cit., p.57.
[5] KLEIN, Hebert S. Op.cit., p.58.

Um comentário:

  1. ele não fez uma analise, apenas resumiu o trabalho de outra pessoa, no caso Herbert S. Klein. Mas como de tudo que se lê pode-se tirar algum proveito.

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