Antes do mundo industrial a maior e mais complexa iniciativa econômica conhecida foi o tráfico de escravos. Segundo Klein (2006), este foi o maior deslocamento de pessoas e bens através do Oceano Atlântico com destino a outros continentes. O comércio marítimo do tráfico negreiro envolvia uma frota anual de centenas de navios tornando-se um negócio custoso e absorvendo grande volume de capital europeu. O tráfico envolveu complicados acordos financeiros de capital e crédito entre a Europa, África e América, sendo explorado por um número grande de comerciantes que competiam em um mercado livre.Segundo Lovejoy (2002), as primeiras caravelas portuguesas se aproximaram da costa da África no Atlântico chegaram em 1440, alcançando o Rio Senegal em 1445, abrindo uma rota paralela às transaarianas controladas pelos mulçumanos. Inicialmente, adquiriam os escravos (juntamente com ouro, marfim e especiarias) e estes eram levados para a Europa Meridional para serem empregados como domésticos. Posteriormente, os escravos eram vendidos para plantadores de cana de açúcar do Mediterrâneo e, após esta produção se espalhar pelo Atlântico, outros eram negociados com compradores da Madeira, das Canárias e das Ilhas do Cabo Verde.
A África não estava sob qualquer pressão comercial ou econômica européia para negociar com escravos (Thornton: 2004). Os africanos já aceitavam a instituição da escravidão em suas próprias sociedades, servindo como força produtiva. Para Thornton (2004), a característica especial da escravidão interna, na qual o escravo era uma propriedade produtiva privada levou à disseminação da escravidão.
Para Klein (2006), embora os escravos fossem levados da costa africana por comerciantes europeus desde meados de 1440, como parte das exportações de ouro e marfim, a organização de um tráfico intensivo levou vários anos para se desenvolver. Inicialmente, a África foi uma modesta fonte de escravos para a Europa até o início do século XVI. Após a colonização e exploração européia na América, o tráfico de escravos finalmente se tornou uma importante atividade econômica.
3.1. A ORGANIZAÇÃO EUROPÉIA DO TRÁFICO DE ESCRAVOS
Nos primórdios, a estrutura européia do comércio de tráfico de escravos foi controlada pelos Estados. Estes estabeleciam taxas, subsídios e contratos de monopólio para fazer o tráfico funcionar e para controlar o fluxo de escravos que saiam da África para a América ou Europa. O Estado controlava e, principalmente, organizava o tráfico negreiro, sobre o qual estabelecia um monopólio, e fornecia auxilio ao comércio nas colônias européias.
A condição determinante para o desenvolvimento ou não do comércio de negros nas colônias européias da América era a capacidade das mesmas de pagar por seus escravos. Os comerciantes espanhóis faziam o uso da prata e do ouro que eram extraídos pelos índios para comprar seus escravos. Os portugueses possuíam uma economia bastante desenvolvida, baseada na cana de açúcar e no uso da mão-de-obra escrava indígena, o que lhes forneceu capital para comprar e trazer escravos para suas colônias.
No início do século XV até o século XVI a Coroa Portuguesa dominava o monopólio na África onde negociava ouro, marfim e escravos. Os estabeleceram comércio em Angola e um entreposto comercial importante em São Jorge de Mina. Essas posições continentais foram somadas às várias ilhas africanas submetidas à colonização portuguesa, das quais a mais importante foi São Tomé e Príncipe localizada no litoral da Baía de Biafra. Com o domínio destas posições estratégicas, Portugal comercializou aproximadamente quatro mil africanos por ano abastecendo não somente suas colônias, mas fornecendo escravos também para as colônias hispano-americanas. O monopólio português foi desafiado pela presença dos traficantes franceses, britânicos e holandeses que no século XVI passaram a visitar intermitentemente o litoral africano, no entanto para esses primeiros traficantes europeus os principais interesses eram o ouro e o marfim, sendo os escravos ainda algo secundário.
Os holandeses foram os primeiros a abalar seriamente o monopólio português no Atlântico (Klein: 2006). Eles fundaram no ano de 1621 a companhia holandesa das Índias Ocidentais tendo como objetivo conquistar as posses americanas e africanas de Portugal. A princípio eles se esforçam em atacar as embarcações portuguesas e espanholas com a finalidade de destruir seus oponentes e possuir suas riquezas, mas logo este tipo de pirataria foi abandonado e passaram a comercializar diretamente na África. Após os holandeses conquistarem temporariamente os fortes litorâneos portugueses em Angola, a Companhia das Índias Ocidentais, a WIC, através de seu monopólio, dominou indiscutivelmente o tráfico no Atlântico entre 1630 e 1650. Klein (2006) afirma que os holandeses dominaram o tráfico de escravos na primeira metade do século XVII. Diminuíram drasticamente a presença portuguesa, fornecendo à América cerca de dois mil e quinhentos escravos por ano (em 1644 esse número chegou a um pico de seis mil e novecentos escravos), vindos em sua maioria da Costa da Guiné Inferior e das regiões de Loango e Angola. A WIC conquistou vários territórios de Portugal, inclusive fundando no Brasil uma importante produtora de cana de açúcar e também uma importante rede de tráfico de escravos na Costa do Ouro em Angola.
Outros países europeus aumentaram seu interesse em participar do lucrativo comércio de escravos. Os franceses estabelecem ligações comerciais com a região da Senegâmbia, os ingleses demarcam os limites geográficos de Serra Leoa ou Costa da Guiné Superior e os holandeses se fixaram na Costa do Ouro. Apesar de determinadas nações européias tentarem manter um monopólio comercial com seus sistemas de fortes ou de feitorias comerciais não fortificadas, foram apenas os portugueses que colonizaram efetivamente algumas regiões da África. Entretanto, segundo Klein (2006), até Portugal teve que operar dentro dos padrões da política da nação africana, tendo que muitas vezes unirem forças com várias nações locais para preservarem seu domínio. Os fornecedores africanos não queriam nenhuma espécie de monopólio, pois não era comercialmente interessante para eles diante da acirrada e disputada competição européia. O comércio constante criou zonas de influência, mas nenhuma costa africana foi exclusiva de alguma nação.
Os europeus, com exceção da Espanha e Portugal, começaram a comercializar através de companhias de monopólio, a exemplo dos holandeses e ingleses que haviam alcançado um grande sucesso. Essas companhias eram empresas mistas, umas subsidiadas pelo Estado e outras privadas. Elas tinham como objetivo conquistar determinadas regiões, fornecer escravos para trabalharem nas colônias e ganhar capital. Muitas companhias foram fundadas para atuarem no comércio de prisioneiros africanos, sendo amplamente usadas por vários países europeus, tornaram-se responsáveis por grandiosos deslocamentos através do Oceano Atlântico de escravos da África até a América.
Os franceses fundaram a Compagnie des Indes Occidentales e a Compagnie Du Sénégal, subsidiadas pelo Estado e que possuíam o direito de comercializar tanto na África quanto na América. Utilizando capital privado, os ingleses fundaram a Real Companhia Africana da Inglaterra que era a responsável por todo o tráfico inglês de escravos, assim como o comércio de mercadorias com a África. Apesar de algumas diferenças entre estas companhias, nenhuma delas foi adiante. Para Klein (2006), isso se deu pelo fato de que elas assumiram determinados compromissos que não as favoreciam. Um exemplo é o fato de que muitas vezes eram obrigadas a fornecer um determinado número de escravos, o que resultava em custos maiores. Posteriormente, as companhias acabaram por fracassar e foram substituídas por livres comerciantes de suas respectivas nações. Embora substituídas, elas arcaram com os custos da exploração comercial e da criação de contatos, créditos e práticas navais que se tornariam normas para os comerciantes que as sucederam.
Uma viagem da Europa para a África levava de três a quatro meses e os traficantes europeus estabeleciam a área que desejavam chegar. Esta área era definida por seu desenvolvimento local e internacional. Era intensa a competitividade por escravos na África, com nações européias disputando uma com as outras as principais regiões africanas, com a finalidade de estabelecer o seu comércio de escravos.
Este comércio tinha a participação ativa dos próprios africanos. Eram eles que capturavam e depois vendiam os escravos para os europeus. Eles se dirigiam para o litoral ou para a margem de um determinado rio e ali então efetivavam as suas vendas. Essa locomoção de escravos para o litoral ou para a margem de algum rio não era algo custoso e sim barato. Os africanos não se interessavam em conservar nos fortes uma grande concentração de escravos, pois mantê-los reclusos era mais custoso e aumentava o seu preço, dependendo do tempo em que eles ficassem ali esperando para serem vendidos.
Quando o navio negreiro chegava ao seu destino eram preparados os registros de saúde dos escravos para que os mesmos fossem comercializados. Algumas vezes eram colocados à venda diretamente do navio e outra vezes eles eram levados para mercados especiais de venda de escravos. Quando a demanda por escravos era grande, os que chegavam aos navios eram rapidamente vendidos em alguns dias. Somente os doentes é que levavam mais tempo para serem negociados e muitas vezes eram comprados por um preço mínimo e entregues aos cuidados de mulheres negras livres, que tratavam deles até que ficassem bem para depois serem vendidos.
Os termos de venda também não era algo fácil nessa época. Quando o preço era acertado, era pago na hora vinte e cinco por cento do valor dos escravos e o restante era pago depois com os bens coloniais, já que dinheiro era algo escasso nas subdesenvolvidas colônias. A literatura tradicional afirma que o lucro no tráfico de escravos era uma realidade, existindo sempre um número grande de comerciantes que queriam investir dinheiro nesse empreendimento e que as nações africanas também lucravam, com os escravos que eram vendidos. No entanto Klein (2006) afirma que o tráfico de escravos era de fato um monopólio europeu do qual os africanos não tinham tanto lucro como a literatura afirmava e que até mesmo os lucros do tráfico para os próprios europeus podem ser questionados, não sendo considerado tão alto assim para os padrões da época.
Caro Claudio Roberto
ResponderExcluirPelo que li, nessa época todo esse comércio de escravos já alimentava o mercado mundial de então. Era o que nós chamamos hoje de mundo globalizado. Muito bom o post!
Abraços,
Adinalzir Pereira
http://saibahistoria.blogspot.com
http://malta336.blogspot.com
www.historiaecia.com
Pelo que eu entendi,os escravos eram muito importantes naquela época.Eles eram um meio muito valioso e usado para se construir riquezas,criar monopólio e capital.
ResponderExcluirEu gostei.
Bjs!
Ass:Nvf.
me ajudou muito esse post .
ResponderExcluirobrigado !!
kimberlly Dandara
qual o nome livro de klein?
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